Por Que Algumas Pessoas Permanecem em Relacionamentos Abusivos: Os Mecanismos Invisíveis do Trauma

Por Que Algumas Pessoas Permanecem em Relacionamentos Abusivos: Os Mecanismos Invisíveis do Trauma

Ela sabe que está sendo machucada. Todos ao redor veem com clareza: aquele relacionamento está destruindo-a por dentro. Amigos, família, colegas, todos perguntam a mesma coisa: "Por que você não sai?" E a pergunta vem carregada de uma suposição perigosa: de que seria fácil, de que bastaria escolher, de que a pessoa "quer" ficar.

Mas não é sobre querer. Nunca foi.

Quando olhamos para alguém preso em um relacionamento abusivo, não estamos vendo fraqueza de caráter, masoquismo ou falta de amor próprio. Estamos vendo o resultado de mecanismos psicológicos profundos, muitos deles operando completamente fora da consciência. Estamos vendo neurobiologia, trauma, e padrões estabelecidos décadas antes do relacionamento atual sequer existir.

Este artigo vai desmontar o mito perigoso de que "pessoas gostam de serem abusadas" e revelar o que realmente acontece no psiquismo de quem permanece em ciclos de violência. Prepare-se para entender que a pergunta certa nunca foi "por que ela não sai?", mas sim "o que a mantém presa?"

A Mentira Que Culpabiliza

Primeiro, precisamos destruir uma crença que permeia o senso comum e causa danos imensur áveis: ninguém gosta de sofrer abuso. Ninguém acorda pela manhã e pensa "hoje quero ser humilhado, controlado, agredido."

Quando dizemos que alguém "gosta" de relacionamentos abusivos, estamos transferindo a responsabilidade do agressor para a vítima. Estamos dizendo, nas entrelinhas, que ela escolheu isso, que ela merece, que ela é cúmplice de sua própria destruição. E isso é cientificamente falso, eticamente irresponsável e psicologicamente devastador.

O que existe não é prazer no sofrimento. O que existe são armadilhas psíquicas invisíveis que capturam a pessoa em teias emocionais das quais sair parece impossível, perigoso ou mais doloroso do que ficar.

Compulsão à Repetição: Quando o Passado Escolhe o Presente

Sigmund Freud (pronuncia-se: Zíg-mund Fróid), ao observar pacientes que repetiam padrões destrutivos indefinidamente, formulou um dos conceitos mais perturbadores da psicanálise: a compulsão à repetição. Ele percebeu que o ser humano não repete apenas experiências prazerosas. Repete, de forma inconsciente e compulsiva, justamente as experiências traumáticas.

Termo: Compulsão à Repetição
Etimologia: Do latim compulsio (ação de forçar) + repetitio (ato de repetir).
Pronúncia em português: com-pul-SÃO à re-pe-ti-ÇÃO
Tradução científica: Tendência inconsciente de reviver situações traumáticas
Significado prático: Mecanismo psíquico pelo qual a pessoa reproduz, sem perceber, experiências dolorosas do passado na tentativa inconsciente de dominá-las ou ressignificá-las, escolhendo parceiros e situações que recriam dinâmicas traumáticas da infância.

Por que alguém faria isso? Freud descobriu que o inconsciente opera com uma lógica própria. Ele tenta "resolver" traumas antigos recriando-os no presente. É como se o psiquismo dissesse: "Dessa vez vai ser diferente. Dessa vez vou conseguir fazer meu pai me amar. Dessa vez vou provar que sou digna de cuidado."

Mas não é diferente. Nunca é.

Uma mulher que cresceu com um pai emocionalmente distante e crítico pode se sentir inexplicavelmente atraída por homens frios e desvalorizadores. Não porque ela "goste" disso, mas porque seu inconsciente reconhece aquele padrão como familiar. E o familiar, mesmo quando doloroso, parece mais seguro do que o desconhecido.

Pesquisas brasileiras sobre compulsão à repetição em escolhas conjugais (Gonzatti, 2023) demonstram que traumas não elaborados na infância criam "mapas afetivos" que orientam inconscientemente as escolhas amorosas na vida adulta. A pessoa não escolhe conscientemente o abusador. Ela é conduzida por forças psíquicas que operam fora de sua percepção.

Trauma Bonding: O Vínculo Que Aprisiona

Em 1981, os psicólogos canadenses Donald Dutton (pronuncia-se: Dó-nald Dá-ton) e Susan Painter (pronuncia-se: Sú-zan Péin-târ) identificaram um fenômeno que revolucionou a compreensão dos relacionamentos abusivos: o trauma bonding, ou vínculo traumático.

Termo: Trauma Bonding (Vínculo Traumático)
Etimologia: Do grego trauma (ferida) + inglês bonding (ligação, vínculo).
Pronúncia em português: TRÁ-u-ma BÓN-ding (vín-cu-lo trau-MÁ-ti-co)
Tradução científica: Apego disfuncional formado através de ciclos de abuso e reconciliação
Significado prático: Forte ligação emocional paradoxal entre vítima e agressor, criada pela alternância entre maus-tratos e demonstrações de afeto, que torna neurologicamente difícil romper o vínculo mesmo diante do sofrimento evidente.

O trauma bonding não é amor. É um sequestro neurobiológico.

Funciona assim: o relacionamento começa como um conto de fadas. O abusador é encantador, atencioso, intenso. A vítima se sente especial, amada, escolhida. Essa fase inicial cria uma âncora emocional poderosa no cérebro.

Então o abuso começa. Mas não é constante. Se fosse, seria mais fácil sair. O abusador alterna períodos de crueldade com momentos de ternura. Após humilhar, ele pede desculpas com lágrimas nos olhos. Após agredir, ele traz flores e promete mudança. Após controlar, ele demonstra vulnerabilidade.

Esse padrão intermitente de punição e recompensa cria um dos vínculos emocionais mais fortes que existem. Por quê? Porque o cérebro humano é extremamente suscetível ao reforço intermitente.

Estudos sobre neurobiologia do trauma bonding (Burkett & Young, 2012) revelam que esse ciclo desregula completamente o sistema de recompensa cerebral. A dopamina dispara nos momentos de reconciliação, criando uma sensação de alívio tão intensa que se assemelha a um vício químico. A vítima não está buscando o abuso. Está viciada neurologicamente no alívio que vem depois dele.

O Ciclo da Violência: A Roda que Nunca Para

A psicóloga americana Lenore Walker (pronuncia-se: Le-NÓ-re Uó-kâr), nos anos 1970, mapeou o ciclo da violência em três fases que se repetem indefinidamente:

Fase 1: Acumulação de Tensão
Pequenas irritações, críticas veladas, clima pesado. A vítima sente que está "pisando em ovos", tentando evitar a explosão que sente vir.

Fase 2: Explosão/Abuso
A violência acontece. Pode ser física, psicológica, sexual, econômica. A vítima é atacada, humilhada, controlada, ferida.

Fase 3: Lua de Mel/Reconciliação
O agressor se desculpa, chora, promete mudança, demonstra arrependimento. Volta a ser a pessoa encantadora do início. A vítima sente alívio, esperança, e acredita que dessa vez será diferente.

Mas não é. O ciclo recomeça. E a cada volta, ele se intensifica e acelera.

Termo: Idealização
Etimologia: Do latim idealis (perfeito, conforme a ideia) + sufixo ação.
Pronúncia em português: i-de-a-li-za-ÇÃO
Tradução científica: Mecanismo de defesa que atribui qualidades exageradas a um objeto
Significado prático: Processo psíquico pelo qual a vítima supervaloriza aspectos positivos do agressor e minimiza ou nega os negativos, criando uma imagem fantasiada que protege o ego do desamparo de reconhecer que quem deveria amá-la está machucando-a.

A idealização é fundamental para manter a vítima presa. Pesquisas sobre idealização em mulheres que sofrem violência conjugal (Xavier & Ferrante, 2019) mostram que reconhecer que a pessoa amada é destrutiva gera um desamparo psíquico tão profundo que o inconsciente prefere distorcer a realidade.

A vítima pensa: "Ele só age assim quando está estressado." "Ela teve uma infância difícil, por isso é assim." "No fundo, ele me ama." Essas justificativas não são ingenuidade. São mecanismos de defesa do ego tentando sobreviver a uma realidade insuportável.

A Neurobiologia do Aprisionamento

O cérebro de alguém em um relacionamento abusivo não funciona normalmente. Não é dramático. É literal.

A exposição crônica ao estresse traumático eleva permanentemente os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. A amígdala, estrutura cerebral que detecta ameaças, fica hiperativada, mantendo a pessoa em estado de vigilância constante. O córtex pré-frontal, responsável por tomadas de decisão racionais e planejamento futuro, tem sua atividade reduzida.

Estudos recentes (Cardozo, 2026) demonstram que mulheres em relacionamentos abusivos apresentam alterações neurobiológicas semelhantes às de pessoas com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). O hipocampo, estrutura envolvida na memória, pode até diminuir de tamanho.

Com tantos fatores neuroquímicos em desequilíbrio, fica neurologicamente difícil para a pessoa modular emoções e tomar decisões racionais. A vítima não fica por "fraqueza". Seu cérebro está quimicamente preso ao ciclo.

É por isso que dizer "basta você querer sair" é cruelmente simplista. É como dizer a alguém com depressão clínica "basta você querer ficar feliz." Ignora completamente a realidade neurobiológica do trauma.

O Papel do Desamparo Aprendido

O psicólogo Martin Seligman (pronuncia-se: Már-tin Sé-lig-man), em experimentos nos anos 1960, descobriu o fenômeno do desamparo aprendido. Quando animais eram expostos repetidamente a choques elétricos dos quais não podiam escapar, eventualmente paravam de tentar fugir mesmo quando as portas eram abertas.

O mesmo acontece com seres humanos em situações de abuso crônico. Após tentativas fracassadas de mudar a situação, de pedir ajuda, de fazer o agressor parar, a pessoa desenvolve uma crença profunda de que nada do que fizer fará diferença. Ela para de tentar porque aprendeu, através da experiência repetida, que a fuga é impossível.

Isso é agravado quando o sistema ao redor falha. Quando a família culpabiliza ("você provocou"), quando a polícia minimiza ("briga de marido e mulher"), quando a justiça não protege, cada falha reforça o desamparo.

PASSAGEM BÍBLICA

"Traz minha alma da prisão, para que louve o teu nome; os justos me rodearão, pois me fizeste bem."
Salmo 142:7 - Almeida Revista e Corrigida

Língua Original - Hebraico: hotzi'ah mimasger nafshi lehodot et-shemecha
Pronúncia: ho-tzi-Á mi-mas-GÉR naf-SHÍ le-ho-DÓT et-she-MÉ-cha

EXEGESE E CONEXÃO COM A PRÁTICA

O salmista clama para ser tirado da prisão. Mas a palavra hebraica masger (prisão) não se refere apenas a celas físicas. Refere-se a qualquer estado de aprisionamento, confinamento, clausura. E a palavra nafshi (minha alma) indica que a prisão é psíquica, existencial, espiritual.

Relacionamentos abusivos são prisões da alma. Não há grades visíveis, mas há correntes psicológicas tão fortes quanto ferro. A vítima está presa não por falta de vontade de sair, mas pela complexidade dos mecanismos que a mantêm cativa: trauma bonding, compulsão à repetição, desamparo aprendido, dependência neurobiológica.

O versículo reconhece algo fundamental: a pessoa não consegue se libertar sozinha. "Traz minha alma" é um pedido de intervenção externa. O salmista sabe que a prisão em que se encontra exige ajuda de fora.

Na psicologia do trauma, isso ressoa profundamente. Vítimas de abuso raramente conseguem sair sem uma rede de apoio consistente: terapia especializada, abrigos seguros, intervenção legal, suporte familiar não-julgador, grupos de apoio.

A frase "os justos me rodearão" aponta para a necessidade de comunidade restauradora. Não pessoas que julgam, que perguntam "por que você não sai?", mas pessoas que cercam, protegem, sustentam. Que não culpabilizam, mas acolhem.

O versículo termina com esperança: "pois me fizeste bem." Há possibilidade de cura. A prisão não é permanente. Mas a libertação exige reconhecimento da complexidade do aprisionamento e intervenção compassiva, nunca julgamento simplista.

O Caminho Para a Libertação

Sair de um relacionamento abusivo não é questão de força de vontade. É um processo complexo que exige:

1. Reconhecimento: A pessoa precisa primeiro reconhecer que está em abuso. A negação e a idealização tornam isso difícil.

2. Segurança: Planejar a saída com cuidado, pois o momento da separação é frequentemente o mais perigoso.

3. Rede de Apoio: Família, amigos, profissionais que não julguem, mas sustentem.

4. Psicoterapia Especializada: Trabalhar os traumas, a compulsão à repetição, os padrões de apego.

5. Tempo: O cérebro precisa de tempo para se desintoxicar neurologicamente do vínculo traumático.

6. Paciência Consigo Mesma: Entender que recaídas são comuns e não significam fraqueza.

Pesquisas mostram que, em média, uma pessoa tenta sair sete vezes antes de conseguir efetivamente romper um relacionamento abusivo. Cada tentativa não é falha. É parte do processo de libertação.

Reflexão Final

Quando olhamos para alguém preso em um relacionamento abusivo, precisamos trocar o julgamento pela compaixão. Não estamos vendo alguém que "gosta" de sofrer. Estamos vendo alguém cuja neurobiologia foi sequestrada, cujo passado traumático está ditando seu presente, cujos mecanismos de defesa estão operando para protegê-la de um desamparo ainda maior.

A pergunta nunca deveria ser "por que ela não sai?", mas sim "como podemos criar as condições para que ela consiga sair com segurança?" E "como podemos, como sociedade, parar de culpabilizar vítimas e começar a responsabilizar agressores?"

Se você está em um relacionamento abusivo, saiba: não é sua culpa. Você não escolheu isso. Você não é fraca. Seu cérebro está fazendo o melhor que pode para sobreviver a uma situação impossível. E há saída. Há cura. Há vida depois do abuso.

Se você conhece alguém nessa situação: não julgue. Não pergunte "por que você não sai?" Ofereça presença, escuta, recursos, paciência. Seja uma das pessoas que "rodeiam" na jornada de libertação.

RECURSOS DE AJUDA:

  • Ligue 180 - Central de Atendimento à Mulher (24h, gratuito)
  • Ligue 190 - Polícia Militar (emergências)
  • Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs)
  • Casas de Acolhimento e Abrigos - busque na sua cidade
  • Terapia especializada em trauma e relacionamentos abusivos

REFERÊNCIAS

BURKETT, James P.; YOUNG, Larry J. "The behavioral, anatomical and pharmacological parallels between social attachment, love and addiction". Psychopharmacology, v. 224, n. 1, pp. 1-26, 2012.

DUTTON, Donald G.; PAINTER, Susan L. "Traumatic Bonding: The Development of Emotional Attachments in Battered Women and Other Relationships of Intermittent Abuse". Victimology: An International Journal, v. 6, n. 1-4, pp. 139-155, 1981.

DUTTON, Donald G.; PAINTER, Susan L. "Emotional Attachments in Abusive Relationships: A Test of Traumatic Bonding Theory". Violence and Victims, v. 8, n. 2, pp. 105-120, 1993.

FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Publicação original: 1920)

GONZATTI, Larissa. Compulsão à Repetição nas Escolhas Conjugais: Situações de Violência Doméstica. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade de Caxias do Sul, 2023.

WALKER, Lenore E. The Battered Woman. New York: Harper & Row, 1979.

XAVIER, Flávia; FERRANTE, Paula. "A idealização em mulheres que sofrem violência conjugal: uma perspectiva psicanalítica". Revista FT, 2019.

"Se identifica com meu Trabalho?
Contribua deixando um Cafezinho via Pix e/ou deixe seu Comentário logo abaixo.
Me Ajude a manter esse Trabalho Independente!"
QR Code para Pix - ruyosilva@gmail.com
Chave Pix:
ruyosilva@gmail.com
[Copiar Chave Pix]
Observação: Para manter esse Site existem despesas com manutenção do Computador, Atualizações, Dedicação de Tempo para Pesquisas e Estudos, Hospedagem do site, Manutenção do Domínio, etc.

Comentários