Obras de Freud de 1923 a 1932: A Década que Redesenhou o Mapa da Mente

Obras de Freud de 1923 a 1932: A Década que Redesenhou o Mapa da Mente

Quando falamos das obras de Freud de 1923 a 1932, estamos diante de um dos períodos mais fecundos da história do pensamento sobre a mente humana. 

Foi nessa década que Sigmund Freud (pronuncia-se "zíguimunt fróid") reformulou seu próprio edifício teórico, apresentou ao mundo a segunda tópica, revisou sua teoria da angústia e voltou o olhar para a civilização como um todo. 

Se você deseja compreender por que ainda hoje falamos em id, ego e superego, é para esse período que precisamos olhar.

Este artigo acompanha o espírito da aula ao vivo "Obras de Freud III. Textos de 1923 a 1932", ministrada pelo professor e psicanalista Luís Carlos Menezes, e propõe um roteiro de leitura para quem quer atravessar esses textos com profundidade e sentido.

O Contexto Histórico de um Período Decisivo

Nenhuma teoria nasce fora do tempo. Em 1923, Freud recebe o diagnóstico de um câncer na mandíbula que o acompanharia até o fim da vida, em 1939. 

A Europa ainda processava as feridas da Primeira Guerra Mundial, e a clínica trazia fenômenos que a primeira teoria não explicava por completo: as neuroses traumáticas, a compulsão à repetição, a resistência silenciosa que parecia vir de dentro do próprio eu.

É nesse cenário que o autor decide fazer algo raro entre pensadores consagrados: revisar a si mesmo. Em vez de defender o sistema anterior, ele o reconstrói.

Você já se perguntou quantas vezes, na vida adulta, teve coragem de rever uma convicção antiga diante de novas evidências? 

Essa disposição, que Freud demonstrou aos 67 anos, talvez seja uma das lições menos comentadas e mais valiosas desse período.

Da Primeira à Segunda Tópica

A palavra tópica vem do grego topos (pronuncia-se "tópos"), que significa lugar. 

Uma tópica é, portanto, um mapa de lugares psíquicos. A primeira, formulada em 1900, dividia a mente em consciente, pré-consciente e inconsciente. 

A segunda, inaugurada em 1923, propõe três instâncias em permanente tensão: o id, o eu e o supereu.

A mudança não é cosmética. Ela responde a uma descoberta clínica incômoda: parte do próprio eu é inconsciente. As defesas que erguemos contra o que não queremos saber operam sem que saibamos que as erguemos.

O Eu e o Id (1923): O Novo Mapa da Vida Psíquica

Das Ich und das Es (pronuncia-se "das irr unt das és"), traduzido como O Eu e o Id, é o texto inaugural e estruturante do período. Nele, três instâncias ganham definição.

O Id: O Reservatório Pulsional

O termo id vem do latim id, que significa simplesmente "isso". Freud tomou a palavra emprestada do médico Georg Groddeck (pronuncia-se "guêorg gródek") para nomear aquilo que em nós é impessoal, anterior à identidade: o reservatório das pulsões, regido pelo princípio do prazer, sem noção de tempo, contradição ou negação.

Há algo profundamente humilde nessa escolha de nome. Não sou apenas "eu": há um "isso" que me habita e me move.

O Eu: O Cavaleiro e o Cavalo

O eu (das Ich) nasce do id por contato com a realidade. Freud o compara a um cavaleiro que precisa conduzir a força superior do cavalo, com a diferença de que, muitas vezes, o cavaleiro é obrigado a guiar a montaria para onde ela mesma quer ir. O eu serve a três senhores exigentes: o mundo externo, o id e o supereu.

Quantas das suas decisões diárias são realmente escolhas, e quantas são negociações silenciosas entre forças que você não escolheu ter?

O Supereu: A Voz Interna da Cultura

O supereu (das Über-Ich, pronuncia-se "das über-irr") é o herdeiro do complexo de Édipo: a internalização das figuras de autoridade, da lei, dos ideais. 

É a instância que julga, cobra e, quando excessiva, adoece. Textos como O Problema Econômico do Masoquismo (1924) mostram como um supereu cruel pode transformar a moralidade em fonte de sofrimento.

Inibições, Sintomas e Angústia (1926): A Grande Revisão

Se O Eu e o Id redesenhou o mapa, o texto de 1926 reescreveu a teoria dos afetos. Até então, Freud entendia a angústia como resultado do recalque: energia represada que se convertia em mal-estar. Em 1926, ele inverte a equação: é a angústia que causa o recalque, e não o contrário.

A angústia passa a ser compreendida como sinal, um alarme que o eu dispara diante de um perigo pressentido, especialmente o perigo da perda: perda do objeto amado, perda do amor, perda de si

O sintoma, nessa nova leitura, é uma tentativa de solução, um modo de evitar o encontro com aquilo que angustia.

Essa inversão muda tudo na clínica e na vida. O que sentimos como problema pode ser, na verdade, a resposta que encontramos para um problema maior que não conseguimos nomear. O que os seus sintomas estariam tentando resolver por você?

Os Textos Culturais: O Futuro de uma Ilusão e O Mal-Estar na Civilização

No fim da década, o olhar se amplia do divã para a civilização.

Em O Futuro de uma Ilusão (1927), Freud examina a religião como formação psíquica coletiva, herdeira do desamparo infantil e da necessidade de proteção.

Independentemente da posição pessoal de cada leitor sobre a fé, o texto convida a uma pergunta honesta: o que sustenta as nossas crenças, e o que as nossas crenças sustentam em nós?

Em O Mal-Estar na Civilização (1930), talvez o mais lido de todos os seus livros, o autor formula uma tese desconfortável: a cultura exige renúncia pulsional, e essa renúncia tem um custo. 

Vivemos em sociedade porque abrimos mão de parte da nossa satisfação, e esse pacto gera um mal-estar estrutural, que nenhum progresso técnico elimina.

 Quase um século depois, em meio à hiperconexão e à promessa de felicidade permanente, a atualidade do diagnóstico impressiona.

As Novas Conferências Introdutórias (1932): O Balanço Final

Encerrando o período, as Novas Conferências Introdutórias à Psicanálise oferecem a síntese madura do percurso. É delas a frase que talvez melhor resuma a ética de todo esse ciclo: Wo Es war, soll Ich werden (pronuncia-se "vô és var, zol irr vêrden"), "onde estava o id, o eu deve advir".

Não se trata de dominar ou eliminar o que é inconsciente, mas de ampliar o território daquilo que podemos reconhecer como nosso

A proposta é menos de controle e mais de apropriação: tornar-se responsável, aos poucos, por aquilo que antes apenas nos acontecia.

Por que Estudar Esse Período Hoje

Estudar as obras de Freud de 1923 a 1932 não é exercício de arqueologia intelectual. Esse período oferece ferramentas diretas para a vida contemporânea:

  1. Compreender conflitos internos: a segunda tópica ajuda a nomear a experiência cotidiana de "querer e não querer ao mesmo tempo".
  2. Ressignificar a angústia: entendê-la como sinal, e não como defeito, muda a relação que temos com o próprio sofrimento.
  3. Ler a cultura criticamente: os textos de 1927 e 1930 são chaves para pensar redes sociais, consumo, religiosidade e política sem ingenuidade.
  4. Formar-se com profundidade: para quem estuda a clínica, esse ciclo é o alicerce de praticamente toda a teoria posterior, de Melanie Klein (pronuncia-se "mêlani cláin") a Jacques Lacan (pronuncia-se "jak lacã").

Vale destacar o valor do estudo ao vivo, em diálogo com um professor experiente. Textos dessa densidade ganham outra vida quando lidos em conjunto, com espaço para dúvidas, discordâncias e exemplos clínicos. 

A gravação preserva o conteúdo, mas o encontro em tempo real preserva algo mais raro: a experiência de pensar junto.

Reflexão Final

O período de 1923 a 1932 mostra um pensador que, diante da doença, da guerra e dos limites da própria teoria, escolheu continuar perguntando. 

As obras de Freud dessa década não entregam respostas prontas: entregam um mapa mais honesto da condição humana, com suas forças em conflito, sua angústia estrutural e sua possibilidade, sempre parcial e sempre preciosa, de tornar-se sujeito daquilo que se é.

E você: em que território da sua vida "estava o id", esperando que o eu pudesse, enfim, advir?

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. O eu e o id (1923). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 16. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, Sigmund. O problema econômico do masoquismo (1924). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 16. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 17. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão (1927). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 17. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 18. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. Novas conferências introdutórias à psicanálise (1933 [1932]). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 18. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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